Você é perfeita, mamãe
E o medo da queda
Eu só entendi o que é ser filha depois que virei mãe, porque só então entendi o desespero que é ser perfeita.
— Você, é perfeita, mamãe, eu quero ser que nem você.
— Não quer não, filha, não quer mesmo. Não sou perfeita.
Ela me disse isso chorando, num momento de fragilidade. Estava frustrada com a própria imperfeição.
— Quero sim, você sabe tudo, mamãe, você tem todas as respostas.
Quanto mais ela me enaltecia, maior meu medo do tombo que ela vai levar lá na frente. E eu serei tão imperfeita que não poderei evitar.
— Não tenho, filha, o que eu menos tenho é resposta.
Ela quer ser eu, e eu temo muito que ela seja. Procuro nela os meus defeitos e aplico todo o meu manejo e sagacidade em extirpá-los. Esse mesmo manejo e sagacidade que não consigo aplicar a mim mesma.
Aí percebo que a errada sou eu, tentando fazê-la perfeita. Como se ela fosse o vaso mais elaborado a ser esculpido em cerâmica por minhas mãos trêmulas.
— Mamãe, por que você treme tanto?
Ela pergunta me vendo segurar o celular para tirar selfies da gente.
— Não sei, é bobagem, não importa.
Eu sei, é claro. Com frequência eu minto para ela, porque mentir também é esconder. Esconder também é poupar. Poupar também é amar.
Ela pergunta coisa demais e não está preparada para as respostas.
Ou eu não estou preparada para as perguntas que vão surgir das minhas respostas.
E se eu minto para esconder, quer dizer que na verdade eu até quero manter essa aura de perfeição? Tudo culpa minha?
É que eu sei como vai ser. Vou responder a verdade, que tremo por causa dos remédios.
— Que remédios, mamãe?
E aí vou entrar num assunto que julgo ser difícil demais para ela digerir.
Esses dias ela me disse, cochichando,
— O Kurt Cobain morreu de depressão. O que é depressão?
Então não, não posso falar sobre isso. Não ainda. Como explicar a distância entre depressão e depressão? Vai ser uma porrada desnecessária.
— Filha, quando eu tinha a sua idade, também tinha dificuldades como as suas. É normal. Todo mundo é assim. Ninguém é perfeito — mesmo, mesmo.
— Mas, mamãe…
E segue me colocando no altar. Só vai entender a angústia que isso me traz quando for mãe. Aí, como eu, ela vai entender realmente o que é ser filha.


Que texto bonito. Dois lados, o antes e o depois de ser filha e de ser mãe.