Inspira, expira #7
Maternidade (sempre ela), loucura (sempre ela), fluxos de consicência (com erros, sempre)
* inspira *
Dizem que a definição de loucura é fazer a mesma coisa inúmeras vezes esperando resultados distintos. Pois bem, apresento-lhes Mães, as Loucas, que passam a infância de seus filhos repetindo a mesma coisa e esperando que sua prole:
Saia da tela
Se comporte nos restaurantes
Escove os dentes
Saia da tela
Lave o cabelo
Vá brincar lá fora
Lembre que sou uma só
Saia da tela
Coma também o verde
Pare de comer meleca
Etc.
Frases que atestam pelo menos uma loucura consciente:
“Essa bola eu cantei” [continua cantando, trouxa]
“Quantas vezes eu vou ter que repetir?” [continua repetindo sem obter resposta]
“Você vai me deixar louca” [spoiler alert…]
O que as mães devem fazer para sair da loucura:
Nada, é inútil lutar contra.
Abrace a loucura, use-a sem raiva e espere chegar o momento de multiplicá-la, quando você diz para uma nova mãe: “ah, querida, é assim mesmo, depois você vai sentir saudades.”
* expira *
Agora inspira e expira mais profundamente, Bia. Conte até 5 ao inspirar, 4 segurando o ar, 8 ao expirar e, antes de puxar novamente o ar, pense nas ondas do mar para que o pensamento não escape para o fato de que, no final do mês, a conta não está fechando.
* inspira *
Eu sempre adorei ditados nordestinos. Então eu pedi pro Claude me mandar frases motivacionais sobre não desistir, com o sotaque do sertão. Meu top 3:
“Quem para na subida, desce”
“Sertanejo não desiste da chuva só porque o céu tá limpo”
“Quem teme a estrada não chega à feira”
Tem ainda aquela do quem espera sempre alcança, que resolvi personalizar para seguir a jornada:
“Quem espera nem sempre alcança, mas se alcançar, quem caminha alcança mais rápido.”
(E volto assim a contar
até 5,
até 4,
até 8.)
* expira *
Um fluxo de consciência:
Hoje é quarta-feira, um dia sempre complicado porque as crianças saem da escola na hora do almoço, não paro de olhar no relógio do computador, no de pulso, no do celular, quem sabe algum deles vai ser gentil? não temos almoço pronto e logo em seguida saio para levar a catu do piano. a partir daí dsurge um dilema: uso aquela hora para caminhar, uso aquela hora para trabalhar, uso aquela hora para ir numa boulangerie comprar um doce e me esfaldar (essa palavra não existe, mas deveria, entre esfalfar e esbaldar) antes que a catu veja e queira também e eu tento fazer ela comer menos doce porque, como eu, ela é formiga e faz mal, foda-se para mim, mas não para ela, que é nela que eu invisto, está errado, claro, mas é assim, estou trabalhando isso na terapia, ninguém precisa repetir, ninguém vai mais fundo nisso do que eu. depois do piano eu pergunto se foi legal, catu responde que sim, daí eu falo que parece que você gosta mais de piano do que de violino, e ela fala que eu digo isso toda semana e eu dou um sorriso porque faço de proposito, é pra ser piada, e ela não ri de volta. voltamos para casa e é fazer lição, algo que acho bem difícil porque tenho vontade de chorar junto quando chega a matemática e a catu rasga o papel com o lápis. eu tento jogar pro Alê sob o pretexto de que ele é 1) matemático/estatístico (tudo igual, exatas) 2) professor (universitário, mas tudo a mesma coisa). depois disso eu deixo as crianças verem TV, a regra é 30 minutos cada, mas a gente acaba deixando mais pra poder trabalhar e pra poder não gritar. a catu segue para o aikidô e o leo fica comigo. eu proponho sessão de leitura, e até funciona às vezes, embora eu confesso que não me concentro bem porque fico admirando o quanto ele está quase lendo na minha velocidade, vejo em que página estou do meu livro e em que página ele está do dele, depois vejo o quanto ele progrediu e o quanto eu progredi. que coisa mais imbecil, tenho 9 anos. alexandre aqui do lado está digitandop mais rápido que eu, vou tentar ganhar, perdi. já são 11:08 e tenho pouco mais de uma hora antes de sair. um livro de mais de 200 páginas esperando minha revisão e ainda não comecei. quarta-feira é um a merda, preciso lembrar de parar de oferecer ajuda como forma de tentar procrastinar e perceber o vazio dos dias enquanto procuro preenche-lo com mais um contrato.
Texto escrito sem corrigirm, se tiver erros de digitação, ortografia, concordância, conjugação, coerência, coesão, ambiguidade, foda-se.
Preciso fazer mais disso, no passado era todo dia. é uma delícia.
* inspira *
Um fluxo de consciência escrito em 2005, aos 25, quando morava em Londres:
Começou a ventar mesmo e meu coração não pára mais. Quanto mais quieta eu fico, menos escuto. Não deveria ser assim. Mas eu vou tirar o dedão da tecla espaço. Vou revolucionar essa merdinha de mundo meu.
Amanhã começo o novo trabalho. Vai dar certo mesmo que dê errado. A três semanas de ir para o Brasil, fica difícil tirar o sorriso do meu rosto cansado.
Mas vez ou outra acontece.
A gente sempre recebe as notícias mais doídas quando não agüentamos mais doer? Tá certo que eu tenho doído pouco, mas simplesmente porque minha cota para esse ano foi atingida, tipo, no primeiro semestre. E tudo o que houve de ruim no segundo semestre fica de quitação da dívida da vida para comigo para 2006. Eu deixei que a vida me fodesse de propósito, para fazer do que vem agora algo mais especial.
Eu desci degraus despencando. Está na hora descer como uma mocinha. Não preciso ser arrastada para a realidade. Vou sozinha, a meu tempo, o sorriso no rosto cansado.
Acho que estou viciada em saudades. Cada vez que chega mais perto de eu matá-la, mais eu a sinto pulsando, quase que uma entidade fora de mim que me assombra e me testa e me sangra.
Meu estômago, um poço de adrenalina com caroços de expectativa e medo. Será que ainda sou eu mesma para quem me conheceu antes de eu vir para cá? Sou tão volúvel assim? Gosto das mesmas coisas? Me incomodo com os mesmos cheiros? Escrevo do mesmo jeito? Me digam, escrevo do mesmo jeito?
* expira *


Adorei ler sobre suas quartas feiras infernais e sobre seu fluxo de consciência londrino.