Inspira, expira #6
Sopa, o vizinho, carnaval 20 anos atrás, não me arrependi.
inspira
Eu estava numa padaria que servia rodízio de sopa em São Paulo. Estava acompanhada da minha irmã e de uma amiga. Sentamos e bati os olhos no cara da mesa da frente.
Era ele, um vizinho da rua, não lembro o nome dele. Pedro? Não era Pedro, mas tinha cara de Pedro.
E de Felipe. Pedro Felipe.
Maxilar quadrado, olhos azuis penetrantes, um corpo forte. Era baixo, tinha o cabelo raspado, estava sempre de camiseta Hering branca, um pouco colada. Playboy do Itaim.
Ele estava, ao que parecia, com a namorada e a mãe.
Uma semana antes a gente tinha se encontrado numa boite e se atracado em seu carro até amanhecer. Foi médio, a gente sempre espera muito de homem bonito.
“A gente se fala, me liga”.
Do meu até o dele eram só dois prédios.
Então estávamos ali, tomando sopa talvez de tomate, comentei com minha irmã e nossa amiga, Thaís, que também era vizinha. As duas conheciam o cara. Agora acho que era Marcelo. “Meeeu, cês lembram do vizinho, aquele da semana passada?” Apontei com o queixo.
Viraram de forma pouca discreta para encará-lo, para meu horror. Ele desviou o olhar, constrangido.
O que era penetrante ficou raso. Sem graça, ele não era bonito, eu lembrava dele mais forte. Não olhou mais para mim.
Quando levantou para ir embora, esperou a mãe e a namorada saírem na frente.
Então me deu uma piscadela.
Eu desatei a rir sem nem cobrir a boca.
Ficamos as três ali, tomando sopa agora talvez de abóbora, imaginando frases de efeito que eu podia ter soltado naquela hora. Saindo de lá fomos pra balada e, de lá, pro Joakin’s mandar um burgão.
No dia seguinte ele me mandou uma mensagem. Não lembro o que dizia, isso faz uns 25 anos. Mas lembro que ignorei. Não era Marcelo, acho que era Luís.
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Eu tomava sopa de letrinha sem nem saber nomear as letras ainda. Minha irmã se exibia professoralmente: “isso aqui é um L, isso um C,isso é um X de Xuxa!” Era mágico olhar para aquilo sabendo que em breve eu decifraria. O equivalente, hoje, a olhar para um texto em árabe e saber que em breve conseguiria ler.
Com a sopa de letrinha eu conseguia comer um frango meio inssosso, cenoura, talvez salsão e outros monstros.
Horas depois, vomitei tudo. Inclusive um A que estava intacto, uma das poucas letras que eu conhecia. Só voltaria a tomar sopa de letrinhas quando já não tinham mais graça e estava doente, curioso.
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Eu tenho uma amiga outrora próxima, agora bem distante, talvez leitora deste texto, cuja comida preferida era SOPA. Sopa de qualquer coisa. Que tipo de comida preferida é essa? Uma amiga da minha idade que tinha 85 anos.
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Do meu blog Inspira, expira, há exatos VINTE ANOS:
Carnaval mais nulo que já passei na vida. Eu nunca fui uma pessoa *carnavalesca* (da lista de palavras que odeio), mas achava legal a alegria de todos em relação à *festança* (outra que odeio). Era só não tentarem me fazer sair pulando que eu fico bem. Pra mim, carnaval é pra assistir enquanto o país perde o controle. Eu myself odeio perder o controle.
O carnaval fez mais falta do que eu pensei. Me peguei imaginando o que eu teria feito se estivesse no Brasil. Teria ido viajar? Provavelmente. Com quem? Não sei, mas eu teria uns cinco lugares diferentes, com turmas diferentes, para escolher. Eu acabaria optando por algum lugar de praia em que nao me viessem com ideias furadas de ir em boite pagar $75678467 por um pacote para as quatro noites.
Bobby e Fru, aqui, foram no sábado num carnaval num bairro chamado Vauxhall, no sul de Londres. Parece que foi divertido, muita música brasileira, caipirinha, gringos, é claro, mas muito brasileiro também. Quase a mesma coisa que na terrinha. À exceção óbvia do frio. Carnaval de sobretudo.
Eu não fui. Fiquei em casa, recebi visitinha do [***], escrevi mais do meu livro (tá graaaande, tá buniiiiito) e fui dormir relativamente cedo. O carnaval pra mim foi ter ido na Ikea, na PQP, comprar móveis e utensílios para casa a preço de alguma fruta barata aqui, já que banana é artigo de luxo. Comprei tudo o que queria/precisava. Criado-mudo, abajour, facas de corte, travesseiro, despertador, varal de roupas etc. Sorte de ter levado junto o [***], que se compadeceu da situação e me ajudou a montar.
Dormi estranha. Primeiro, a notícia de que vou ser efetivada na empresa. Depois, as compras da casa, minha casa, apesar de alugada. Um medo de permanência, da falta da saída de emergência - prato cheio pros meus ataques de pânico. Felicidade e angústia misturados. Uma combinação esquisita e assustadora. Quem consegue ser feliz mesmo angustiado traz no olhar o mesmo brilho dos sado-masoquistas. E eu não sou nem um, nem outro.
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Do mesmo blog, há 21 anos:
“A solidão é uma coisa bela, mas é necessário alguém para nos dizer que a solidão é uma coisa bela.” — Honoré de Balzac.
No mesmo dia, mais um post de três palavras:
Não me arrependi.
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Chegou até aqui? Obrigada, sinal de que gosta do que eu escrevo! No momento tenho 14 assinantes que me pagam meio café por mês e por isso agradeço imensamente, de coração. Chegando nos 50 doarei metade do recebido para caridade. Vem me pagar meio café?


Adoro uma sopinha. Canja então...
Lembro da compra do varal, mas não do carnaval. O que isso diz sobre mim?