Assédio #5
O vendedor de bugigangas
Talvez seja mesmo alguma mensagem errada que eu passe sem fazer ideia. Posso ser tão equivocada assim? Não é possível, eu acredito que tenho noção. Vejam, isso aqui aconteceu há dois anos apenas.
Eu estava na cidade do meu coração, Londres, a trabalho. Era um final da tarde de agosto, quente e claro. Eu vestia calça social e camisa para encontrar algumas pessoas para um jantar. Pra variar, tinha chegado cedo demais. Então fiz hora na Oxford Street enquanto não dava a hora de ir ao restaurante.
Pensando nos meus filhos, parei num desses quiosques de rua que tem por ali, queria ver se achava um chaveiro para a coleção da Catu e algum souvenir para o Leo.
O vendedor era extrovertido. Viu uma potencial cliente interessada e saiu falando bom dia em todas as línguas, inclusive português. Respondi “boa tarde”. “Ah, Brazilian! I love Brazilian! Very friendly! Beautiful country, beautiful women, samba, carnaval, football” etc. Ele falava inglês com um sotaque estrangeiro bem carregado.
Tendo morado fora por muitos anos, sabia que pessoas das mais diversas nacionalidades acham que mulher brasileira é “saidinha”, “fácil”, pronta para “have fun”, rebolar, usar biquíni fio-dental.
Ele perguntou o que eu estava procurando. Respondi que eram lembrancinhas pros meus filhos. Perguntou a idade dos meus filhos… Enfim, a conversa foi fluindo, não vi problema nisso. Muito pelo contrário, uma vez ou outra eu até gosto de conversar com pessoas que conheço assim, inesperadamente.
Em determinado momento, levemente incomodada porque ele não me dava espaço para ver as bugigangas e já querendo sair daquela situação, dei um passo para o lado, me afastando gentilmente dele, para ver de perto um chaveiro. Ele se aproximou por trás e encostou seu corpo no meu, sem o menor pudor, aquilo a que chamamos em bom português de “encoxada”. Isso sem parar de falar, com a maior naturalidade, fazendo indicações do que comprar, esticando os braços por trás de mim para me mostrar os chaveiros. Simplesmente grudou. Eu o empurrei com a bunda, ou as costas. Empurrei com tudo, saí bruscamente de perto, perguntei o que ele achava que estava fazendo, já querendo armar um barraco. Ele pediu calma, take it easy, estava rindo de leve do meu “escândalo”. Talvez já estivesse acostumado. Ficou em silêncio alguns segundos e, antes que eu fosse embora, perguntou se eu não queria ver as camisetas que ele tinha lá dentro do quiosque. “Tenho umas diferentes pro seu filho. Poderia fazer um desconto especial.”
Mandei tomar no cu (ele riu, o filho da puta riu), ainda andei olhando para trás para ter certeza de que ele não viria atrás de mim.
Cheguei no restaurante tremendo de raiva, transtornada. Ficava revivendo a cena pensando em gritar que this man tried to rub up against me, ele tentou me encoxar. Eu conseguindo virar de frente para ele e dando uma joelhada no saco. Eu o empurrando para o meio da rua e ele sendo atropelado por um double decker. Eu chamando a polícia. Eu derrubando tudo o que tinha na barraquinha. Eu entrando no quiosque do homem e sendo estuprada.
Ainda era cedo, então pedi logo a mesa reservada e esperei os outros chegarem. Pedi um vinho para conseguir relaxar. Respirei fundo e, recomposta, voltei no tempo e sorri durante todo o jantar.
Voltei para a França sem lembrancinhas para as crianças dessa vez.
Foi um incidente chato, mas eu não deveria me deixar abalar. Acontece todos os dias, é trivial. Poderia ser pior, tem coisas bem mais graves que acontecem com outras mulheres. Eu é que sou sensível demais. É só isso.



Fiquei refletindo sobre o quanto é perigoso ser mulher. É um absurdo isso. Ser-mulher. Ponto. Tenho duas filhas e sei que essa angustia vai chegar. Quanto maior a consciencia dessa "condiçao" neste mundo, maior a angustia.