Assédio #4
O senhor dos gatos
Há uns 3 anos, como se já não tivéssemos pepinos demais para resolver na vida, resolvemos adotar uma terceira gata. Queríamos uma filhotinha, as crianças iriam curtir muito. Uma vez que comprei a ideia, fui atrás obssessivamente. Procurei em abrigos de animais, grupos de Facebook, até que resolvi postar num grupo de whatsapp de mulheres da minha região. Uma delas, Adeline, me respondeu. Filhotinha, 3 meses, brincalhona, carinhosa etc. Único detalhe: Ela estava aos cuidados do Fréderic, um amigo dela que morava no meio do mato, no fim de uma rua sem saída de um vilarejo na Normandia. Teríamos que buscar no cu do Judas.
Eu, porém, estava decidida. Não lembro direito o que houve nesse sábado, mas acabei tendo que ir sozinha. Uma hora e meia de carro, mas valeria a pena, a bichinha era adorável pelos vídeos. E não haveria problemas, o cara era amigo de uma conhecida, vinha recomendado.
Cheguei lá e o Fréderic me recebeu do lado de fora de sua casa. Era baixo, barrigudo, o cabelo ensebado e um cheiro pungente de suor — até aí, francês, não me surpreendi. Conversamos um pouco, ele perguntou de onde era o meu sotaque, o que eu fazia na França, aquela conversa de sempre, amigável.
Daí me convidou a entrar e conhecer a gatinha. Eu entrei, e a cena era de uma decadência tão extrema que deveria ser set de filmagem: tudo caindo aos pedaços, umas cinco caixas de areia todas sujas, com areia saindo ao redor, cerca de 10 ou 15 gatos pela sala, muitos filhotes, ração espalhada pelo chão. O cheiro amoniacal era desorientador, sufocante. Eu olhava para os bichinhos e via, literalmente, pulgas pulando de um lado para o outro, passeando em seus pelos. O homem parecia alheio ao meu desconforto. Ou não notava, ou não ligava.
Até aí, beleza. Coitado do Fréderic.
Em meio ao choque, consegui abrir um sorriso. Os filhotes eram muito fofos, brincalhões, alguns muito sociáveis, aquele miadinho fino adorável. Enfim, sou louca por gatos, logo esqueci que me encontrava na espelunca de um senhor que nunca vi na vida, no meio do mato, no meio da Normandia. Ele começou a me explicar quais filhotes ainda poderiam ser adotados e quais já estavam reservados. Eu me ajoelhei e vários deles vieram na minha direção.
Fréderic percebeu minha alegria em ver aqueles bichinhos e colocou um dos filhotes no meu colo. Eu acolhi, acariciei, babando de fofura. Então o senhor pegou outro filhote para colocar no meu colo. Pus o primeiro no chão para dar espaço ao segundo. Mas percebi algo estranho. Quando ele colocou esse segundo gato no meu colo, relou no meu seio.
Ah, Bia, vai… Foi sem querer! Um senhor de, sei lá, uns 60-70 anos? Que cuida de gatinhos para adoção? No meio do mato na Normandia? Numa casa com pomar e tudo?
Ouvi essa voz me julgando, me invalidando, como se eu estivesse querendo ver encrenca onde não existe, e me convenci de que só poderia ter sido um acidente. Pronto, passou.
Então ele pegou o terceiro filhote e, sem esperar que eu pusesse no chão o segundo, colou no meu colo. Dessa vez ele resolveu acariciar os gatinhos que estavam no meu colo e, enquanto os acariciava, acariciou também meus seios com as costas da mão. Agora estava claro, meu alarme soou forte. Sem que eu pudesse me desvencilhar e ficar com as mãos livres, ele continuou fazendo a mesma coisa, gato após gato, até eu falar para ele parar, ia levar aquela gatinha original mesmo, aqui está a caixa de transporte, vamos colocá-la dentro e au revoir.
Não tão já.
Ele achou necessário me mostrar a mãe daquela filhotinha. Mas a mãe, vejam vocês que curioso, estava separada dos outros gatos no quarto dele. Ele começou a andar na direção do corredor, esperando que eu o seguisse, e eu falei que não era necessário conhecer a mãe, eu precisava ir embora, meu marido e meus filhos estavam me esperando, meu marido já tinha até me ligado para saber se eu estava voltando.
Fiquei em pânico. Já havia simulado mentalmente diversas formas de derrubá-lo se necessário. Ele era um cara atarracado, claro que um dia foi mais forte, mas era mais velho, dava para dar uma joelhada no saco, um empurrão que o deixasse estonteado. Só gritar não adiantaria porque não tinha viva alma ao redor para me escutar.
Destranquei a porta da casa dele e saí decidida, fui até o portão e ele deu uma corrida para me acompanhar. Disse que tinha sido um prazer me conhecer. Pegou-me pelos ombros e puxou-me em sua direção. Me deu quatro (!) beijos de despedida. Em condições normais, não tínhamos intimidade para mais do que um aceno de longe.
Entrei no carro voando, dei partida e sumi dali. Parei alguns quilômetros adiante para respirar, o coração disparado. A gatinha ao meu lado sendo devorada pelas pulgas.
Cheguei em casa, contei para o Alê. Ele queria ir atrás do velho, enchê-lo de porrada, mas eu disse que não. Fréderic morava muito longe, vai que tinha arma em casa? E, na verdade, eu não queria mais nada com aquele homem asqueroso. Ele já tinha me causado mal o suficiente.
Me informei se valeria a pena prestar queixa para a polícia, mas, com as pessoas com quem conversei a respeito, todas me disseram que eu perderia meu tempo e me estressaria à toa. O abuso que eu havia sofrido não era “abusivo o suficiente”.
Algumas semanas mais tarde ele me mandou uma mensagem, queria saber como estava a gatinha, se estava se adaptando bem. Eu respondi secamente que sim, mandei uma foto dela. Deveria ter respondido? Não. Mas respondi.
Segue a tradução do diálogo na foto logo abaixo:
ELE: É uma bela gata. Os outros filhotes já foram embora e também estão bem.
EU: Que bom
ELE: Sim, por isso eu quis pessoas responsáveis adotando os filhotes. Eu adoraria te rever para tomarmos um vinho juntos.
EU: Eu adoraria que você não me contactasse mais. Seu comportamento não foi apropriado.
Ele apagou a mensagem seguinte, que dizia apenas “très bien…” muito bem. Acredito que apagou porque dizer “très bien” era um atestado de que de fato havia sido inapropriado.
Fui falar para a Adeline, a mulher que primeiro me pôs em contato com meu assediador #4, sobre o que seu amigo tinha feito. Curiosamente, ela de repente não era mais amiga do Fréderic.
“I don’t know him personally well.”
Demorou alguns meses para que eu conseguisse criar vínculo com nossa Cookie. Pela primeira vez na vida, cogitei passar um gatinho adiante. Por muito tempo foi impossível dissociá-la daquele homem.




Como as vezes somos idiotamente ingênuas. Quem poderia imaginar?!!
Passei enjoo quase todo o texto. Sinto muito minha irmã 😒